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Contrastes da presidência de William Ruto: da cena global às crises domésticas

Enquanto Ruto brilha no cenário internacional, os quenianos enfrentam dificuldades econômicas e descontentamento interno crescente


Nos dois anos desde sua eleição, o Presidente do Quênia, William Ruto, ganhou destaque global ao impressionar ativistas climáticos sob a Torre Eiffel, interagir com líderes tecnológicos no Vale do Silício e ser reconhecido como um defensor da paz na Casa Branca. Porém, enquanto realizava dezenas de viagens ao exterior, os quenianos enfrentavam sérias dificuldades econômicas.

A crise do custo de vida, agravada pela percepção de que os governantes desfrutam de privilégios, levou a população a protestar contra os planos de Ruto para aumentar os impostos. Esses protestos forçaram o presidente a recuar, revelando a disparidade entre sua imagem de líder global e a dura realidade interna do Quênia, marcada por dívida pública, corrupção e ameaças à segurança.

Essa situação enfraqueceu significativamente sua posição interna. Analistas e políticos observam que a administração de Ruto está dividida e seus oponentes ganham força, visando as eleições de 2027. Willy Mutunga, ex-presidente do Supremo Tribunal do Quênia, afirmou que a administração de Ruto, apoiada por interesses estrangeiros e desconectada das necessidades populares, estava destinada a enfrentar esses desafios. “Enquanto os interesses materiais dos jovens não forem atendidos, o abismo ficará cada vez maior”, destacou Mutunga.

O Quênia, uma das maiores economias da África e uma democracia sólida, tem ampliado seu papel global. Recentemente, Ruto enviou 400 policiais ao Haiti e participou de discussões no G7 sobre a reforma do sistema financeiro global e a ação climática. Contudo, com os protestos se espalhando, sua administração está em uma luta pela sobrevivência.

Se Ruto focar nas questões internas, as potências ocidentais podem perder um aliado crucial na África. Ruto ofereceu diálogo aos manifestantes e deve apresentar um novo plano econômico, desafiador devido às exigências dos credores internacionais. “Mesmo que as manifestações diminuam, esta desobediência civil é um momento definidor”, disse Declan Galvin, diretor da Exigent Risk Advisory, sediada em Nairobi.

Ruto é conhecido por sua ética de trabalho, mas enfrenta uma sombra sobre seu passado, incluindo uma acusação no Tribunal Penal Internacional relacionada à violência pós-eleitoral de 2007-2008, apesar do caso ter sido arquivado. Gabrielle Lynch, especialista no Quênia da Universidade de Warwick, descreve Ruto como um “artista incrível” que adapta seu discurso conforme o público, tentando legitimar sua imagem globalmente e domesticar sua reputação.

Nos seus primeiros 20 meses no poder, Ruto fez 62 viagens a 38 países, conforme contagem do Daily Nation do Quênia. Contudo, sua resposta às queixas internas tem sido considerada surda. Seus oponentes o apelidaram de “Zakayo”, uma referência a um coletor de impostos ganancioso da Bíblia, e vídeos de políticos exibindo riqueza durante os protestos alimentaram ainda mais o descontentamento.

A relação do Quênia com os Estados Unidos se estreitou durante a presidência de Ruto, mas críticos afirmam que isso turvou a visão de Washington sobre os desafios quenianos. O apoio dos EUA tem sido vital na luta contra militantes islâmicos na Somália, e Ruto, próximo da embaixadora dos EUA no Quênia, Meg Whitman, tem atraído investidores estrangeiros.

Boniface Mwangi, um ativista social queniano, critica a resposta tardia dos EUA à violência dos protestos, argumentando que Washington deve usar sua influência para promover o diálogo entre Ruto e os manifestantes. “Eles compraram todo esse brilho e personalidade encantadora, mas não veem o ferro por trás da luva de veludo”, disse Mwangi.

Assim, enquanto Ruto se projeta como um líder global, enfrenta uma crescente pressão interna para responder às necessidades do povo queniano e superar os desafios econômicos e sociais que ameaçam sua administração.

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