3/23/2025 01:15:00 PM

À medida que a guerra na Ucrânia se prolonga, a Europa vive uma transformação inédita em suas políticas de defesa desde o fim da Guerra Fria. Em nenhum lugar essa mudança é mais evidente do que na Alemanha. Após anos de cortes e subinvestimentos, o país decidiu dar uma guinada histórica em sua estratégia militar.
O novo chanceler alemão, Friedrich Merz, assumiu o compromisso de fortalecer as Forças Armadas do país, conhecidas como Bundeswehr. Com um pacote bilionário e reformas constitucionais, Berlim pretende recuperar a capacidade de defesa e voltar a ser um dos principais atores militares do continente.
Merz anunciou recentemente a liberação de recursos que podem chegar a € 600 bilhões nos próximos dez anos, caso a meta de destinar 3,5% do Produto Interno Bruto (PIB) à defesa seja mantida. Em 2024, a Alemanha já alcançou o patamar de 2% exigido pela Otan, algo que não acontecia há mais de três décadas.
“É um novo paradigma para a política de defesa alemã”, declarou Merz, durante um discurso em Berlim. “Por muito tempo, acreditamos em uma segurança ilusória. Agora é a hora de agir.”
A resposta alemã ocorre em meio a um cenário global cada vez mais instável. A invasão russa em grande escala à Ucrânia, em fevereiro de 2022, foi o gatilho para o chamado Zeitenwende — termo em alemão que significa “ponto de virada”. O ex-chanceler Olaf Scholz foi o primeiro a reconhecer a necessidade de reformular a política de defesa, criando um fundo emergencial de € 100 bilhões para modernizar a Bundeswehr. No entanto, problemas na execução dos projetos e embates internos no governo acabaram por enfraquecer a liderança de Scholz, abrindo caminho para a ascensão de Merz.
Apesar do aumento no orçamento e das novas metas, a Bundeswehr enfrenta desafios significativos. Um relatório recente da comissária parlamentar para as Forças Armadas, Eva Högl, apontou problemas crônicos na infraestrutura e no recrutamento. Atualmente, o efetivo militar soma pouco mais de 181 mil soldados — bem abaixo da meta de 203 mil prevista inicialmente para 2025 e, agora, adiada para 2031.
A idade média dos militares também preocupa. Segundo o relatório, passou de 32 para 34 anos nos últimos quatro anos, reflexo da dificuldade em atrair novos recrutas. Para o brigadeiro-general Ralf Hammerstein, uma solução possível seria o retorno do serviço militar obrigatório, suspenso na Alemanha desde 2011. “Não vejo outra maneira de expandir nossas forças no ritmo necessário”, afirmou o general.
As condições dos quartéis e da infraestrutura também são apontadas como obstáculos. O levantamento de Högl estima que seriam necessários € 67 bilhões adicionais apenas para reformas estruturais.
Ainda assim, há otimismo. Hammerstein destaca a motivação dos soldados e acredita que a Alemanha tem uma base sólida para impulsionar sua reestruturação militar. “Temos uma boa substância e soldados comprometidos”, afirmou.
Ao que tudo indica, a sociedade alemã está disposta a apoiar esse novo caminho. Pesquisas recentes mostram que dois terços da população aprovam o aumento nos gastos com defesa, apesar das tradicionais reservas históricas do país em relação ao fortalecimento militar.
“A Alemanha está de volta”, declarou Merz em um pronunciamento na capital federal. “Estamos fazendo uma contribuição significativa para a defesa da liberdade e da paz na Europa.”
Com um plano ambicioso e um orçamento sem precedentes, a Alemanha parece determinada a recuperar seu papel central na segurança europeia — e a escrever um novo capítulo em sua história militar.
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