5/27/2025 05:41:00 PM

Stanislav Martynyuk, de apenas 8 anos, aparece com semblante orgulhoso em sua foto escolar. Mãos cruzadas sobre a carteira, óculos grandes no rosto, ele transmite a imagem de um jovem estudioso. A foto do menino, junto com as de sua irmã Tamara, 12 anos, e do irmão mais velho Roman, 17, foi colocada em um memorial improvisado na escola onde estudavam, em Korostyshiv. Os três irmãos morreram quando um ataque aéreo russo atingiu a casa da família no último fim de semana.
A ofensiva, parte de uma nova onda de bombardeios conduzidos por Moscou contra cidades ucranianas, matou pelo menos 14 civis. Especialistas afirmam que a intensificação dos ataques é uma estratégia russa para transmitir a imagem de que está vencendo a guerra, minar o moral ucraniano e pressionar os aliados ocidentais de Kyiv.
Desde o outono passado, a Rússia tem ampliado o uso de drones kamikaze baseados no modelo iraniano Shahed, com fabricação própria. A ofensiva aérea ganhou novo impulso a partir de janeiro deste ano, após o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos. Das cinco maiores ofensivas com drones desde o início da guerra, quatro ocorreram nos últimos dez dias.
Apesar de ter prometido encerrar o conflito em apenas 24 horas, Trump tem adotado posturas ambíguas diante da guerra. No fim de semana, após o ataque mais violento desde 2022, o presidente norte-americano chamou Vladimir Putin de “louco” nas redes sociais, mas também criticou o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, acusando-o de criar tensões com os Estados Unidos.
O Kremlin, por sua vez, insiste que continuará garantindo sua segurança, independentemente das negociações ou da posição norte-americana. Dmitry Peskov, porta-voz do governo russo, alertou que a Ucrânia “vai se machucar” se insistir no uso de drones contra o território russo.
Segundo o Institute for the Study of War, os bombardeios fazem parte de uma campanha calculada para convencer o Ocidente de que uma vitória russa é inevitável — e que, portanto, continuar apoiando a Ucrânia seria inútil. Paralelamente, crescem os relatos de sabotagem, ataques cibernéticos e incêndios criminosos em países europeus aliados de Kyiv, atribuídos a operações russas.
Putin também tem postergado os esforços de negociação liderados por Trump. Em vez de rejeitar as propostas de cessar-fogo, o presidente russo apresenta novas exigências e responsabiliza a Ucrânia pelo impasse. A atitude tem contado com apoio público de Trump, que chegou a defender negociações diretas entre Moscou e Kyiv, surpreendendo os demais aliados ocidentais da Ucrânia.
Desde o início do ano, Trump vem sinalizando que não pretende manter o nível anterior de assistência militar a Kyiv. Em um episódio marcante, suspendeu temporariamente os envios de ajuda por desentendimento com Zelensky. Embora a assistência tenha sido retomada, o gesto foi interpretado como um sinal de fragilidade na aliança, encorajando o Kremlin.
Mesmo com superioridade aérea, a Rússia não tem conseguido avanços estratégicos significativos. O analista Mark Galeotti descreve o cenário como uma guerra na qual “ambos os lados estão perdendo — mas os ucranianos estão perdendo mais rápido”. A última grande vitória de Kyiv ocorreu em novembro de 2023, com a libertação da cidade de Kherson. Desde então, o front permanece relativamente estático.
Enquanto isso, o impacto sobre civis se intensifica. De acordo com a Missão de Monitoramento de Direitos Humanos da ONU, abril foi o mês mais letal desde setembro de 2024, com 209 civis mortos. Foi também o pior mês para crianças desde junho de 2022: 19 morreram e 78 ficaram feridas.
O ministro do Interior da Ucrânia, Ihor Klymenko, afirmou que os ataques do fim de semana têm como objetivo claro “espalhar medo e morte”. A mãe dos irmãos Martynyuk ficou gravemente ferida; o pai também foi atingido. Roman, o mais velho, estava prestes a se formar.
Na escola, o clima era de luto. Janelas quebradas pela onda de choque da explosão lembram a violência do ataque. Um memorial foi montado na entrada, coberto de flores e brinquedos. Tamara, descrita por seu professor como “modesta e muito educada”, deixou uma lacuna sentida por todos. Muitos alunos, abalados, nem conseguiram comparecer à homenagem.
“Ninguém combinou, mas a maioria veio vestida de preto”, contou o professor Oleh Hodovaniuk. “Foi um dia muito difícil para todos.”
O episódio evidencia a brutalidade da guerra — e como, para muitos civis ucranianos, a luta pela sobrevivência se tornou a única constante.
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