6/01/2025 05:49:00 PM

Ao menos 31 palestinos morreram e mais de 200 ficaram feridos neste domingo (1º), durante um tumulto nas proximidades de um ponto de distribuição de ajuda humanitária em Rafah, no sul da Faixa de Gaza. O local é administrado por uma fundação privada financiada pelos Estados Unidos. As informações são do Ministério da Saúde da Palestina.
De acordo com testemunhas, profissionais de saúde e autoridades hospitalares, soldados israelenses teriam disparado contra civis que se dirigiam ao ponto de ajuda. O Exército de Israel, no entanto, nega ter atirado contra pessoas nas proximidades do local e afirma que os tiros foram disparados horas antes da abertura do centro, a cerca de 1 km de distância, em direção a “indivíduos suspeitos”.
O episódio ocorreu nas primeiras horas da manhã, quando milhares de palestinos se deslocaram ao centro de distribuição, na tentativa de garantir acesso à ajuda antes da abertura oficial. Muitos haviam caminhado por horas desde outras regiões de Gaza.
Segundo relatos colhidos por equipes médicas locais e por paramédicos da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino (PCRS), houve intenso tiroteio e cenas de pânico. Testemunhas afirmam que a confusão começou na rotatória conhecida como “Al-Alam”, a cerca de 800 metros do centro, onde civis teriam sido atingidos por disparos. Vídeos gravados no momento mostram pessoas correndo e luzes do centro de distribuição ao fundo, além de possíveis rajadas de munição traçante.
O Ministério da Saúde informou que a maioria dos mortos apresentava ferimentos na cabeça e no peito. A Cruz Vermelha relatou que seu hospital de campanha recebeu 179 feridos, incluindo mulheres e crianças — 21 já sem vida. O Hospital Nasser também recebeu diversas vítimas.
“É o maior número de feridos por armas em um único incidente desde que o hospital foi inaugurado há mais de um ano”, declarou a organização humanitária em comunicado.
Em nota, o Exército de Israel classificou como “falsas” as alegações de que soldados tenham disparado contra civis no centro de ajuda. Afirmou ainda que realiza uma apuração preliminar que descarta qualquer disparo contra civis próximos ao local.
Já a fundação responsável pela distribuição, Gaza Humanitarian Foundation (GHF), também negou qualquer tiroteio nas proximidades. Vídeos divulgados pela organização mostram multidões correndo em direção ao centro ao amanhecer, mas sem evidência de violência. Em imagens posteriores, centenas de pessoas aparecem carregando caixas de comida.
Mesmo assim, testemunhas relataram caos generalizado. “Aquilo não é um ponto de ajuda — é uma armadilha mortal”, disse um morador local. Outros relataram tiroteios aleatórios, pessoas sendo pisoteadas e cenas de desespero. Muitos voltaram para casa de mãos vazias.
“Não consegui pegar nada. Caminhei sete horas. Sou um homem velho, tenho filhos passando fome. Ninguém no mundo quer ajudá-los”, disse Abdul Majid Al-Zayti.
O sistema da GHF tem sido alvo de críticas por parte de agências da ONU e grupos humanitários, que apontam falhas de organização, ausência de triagem de beneficiários e riscos elevados à população. Diferente de órgãos como a UNRWA, a GHF não utiliza banco de dados nem realiza verificação de identidade para a entrega de alimentos.
Segundo a GHF, mais de 4,7 milhões de refeições foram distribuídas em seis dias. Neste domingo, a organização informou ter entregado 16 caminhões com alimentos, o equivalente a 887 mil refeições. A fundação ainda anunciou planos de ampliar sua atuação com novos centros em outras regiões de Gaza.
John Acree, diretor executivo interino da GHF, reconheceu que a demanda é imensa e os desafios são constantes. “Atualmente somos a única organização capaz de entregar alimentos com segurança, mas operamos sob fortes restrições e fatores fora do nosso controle”, afirmou.
Desde a abertura dos centros, na semana passada, ao menos 42 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas em episódios semelhantes, segundo autoridades palestinas.
Comentários
Postar um comentário