7/19/2025 05:41:00 PM

No auge de uma turnê histórica, Beyoncé colhe os frutos do sucesso de Cowboy Carter, seu aclamado álbum country que desafia convenções e reposiciona artistas negros no centro de uma narrativa da qual sempre fizeram parte. Lançado no ano passado, o disco não apenas resgata sonoridades tradicionais, mas também reabre debates sobre pertencimento, representatividade e identidade no cenário musical dos Estados Unidos.
O projeto surgiu como resposta direta à rejeição velada que a artista enfrentou em 2016, após se apresentar no Country Music Awards. À época, críticas racistas colocaram em dúvida sua presença no evento — um episódio que Beyoncé transformou em combustível criativo. “Esse álbum nasceu de uma experiência em que me senti indesejada”, revelou, ao anunciá-lo.
Agora, com o encerramento da turnê previsto para este mês, Cowboy Carter consolida-se como um marco artístico e político. O espetáculo ao vivo é uma ode à contribuição negra para a música e a história americana. Em cada apresentação, milhares de fãs negros vestem botas e chapéus country, ocupando um espaço que por muito tempo lhes foi negado.
Simbolismo poderoso, recepção dividida
No palco, Beyoncé revisita símbolos tradicionais dos Estados Unidos com ousadia e reinvenção. Em Washington, no 4 de Julho, ela surgiu com um collant azul coberto de estrelas prateadas e um casaco com a bandeira americana, enquanto interpretava o hino nacional na versão distorcida de Jimi Hendrix, eternizada em Woodstock. Em uma das projeções, lia-se: “Nunca peça permissão para algo que já é seu por direito.”A recepção, porém, tem nuances. Muitos aplaudem a valorização da estética negra no universo country. Outros, mesmo entre seus admiradores mais fiéis, apontam uma desconexão entre o orgulho americano que ela exibe e o silêncio diante de questões atuais. “Acho problemático o uso constante da bandeira sem mencionar as injustiças que ela também representa”, comentou uma fã na rede X.
Para críticos como Stacy Lee Kong, fundadora da newsletter Friday Things, a postura da cantora levanta questionamentos: “Celebrar a bandeira americana e a contribuição negra à história dos EUA sem reconhecer os danos causados por esse mesmo país pode soar superficial.”
A polêmica dos Buffalo Soldiers
O debate se intensificou após o show de Juneteenth em Paris, quando Beyoncé usou uma camiseta com a imagem dos Buffalo Soldiers, tropas negras que atuaram no Exército dos EUA após a Guerra Civil. Na parte de trás da peça, um texto os colocava como combatentes de “índios em guerra, bandidos, contrabandistas e revolucionários mexicanos”.A repercussão foi imediata. Alguns elogiaram a homenagem; outros criticaram a forma como indígenas e mexicanos foram retratados como inimigos do Estado. Beyoncé não se pronunciou sobre o episódio, o que gerou ainda mais cobranças por posicionamentos públicos.
Artistas devem se posicionar?
Essa tensão entre arte e ativismo acompanha Beyoncé há anos. Em 2016, sua apresentação no Super Bowl evocou os Panteras Negras. Em 2020, ela manifestou apoio ao movimento Black Lives Matter. Mas, desde então, tem adotado uma postura mais reservada. Durante a guerra em Gaza, por exemplo, seu silêncio foi alvo de críticas, especialmente após o filme da turnê Renaissance ser exibido em Israel.“Ao construir um espaço de poder, Beyoncé se tornou uma figura política — queira ou não”, afirma B.A. Parker, coapresentadora do podcast Code Switch, da NPR.
A questão permanece: é justo exigir que artistas se pronunciem sobre todos os temas? Taylor Swift, por exemplo, só recentemente passou a adotar uma postura mais explícita. Já Kendrick Lamar, no último Super Bowl, rejeitou abertamente essa expectativa: “Você escolheu a hora certa, mas a pessoa errada.”
Pressão desproporcional?
Para Melvin Williams, professor da Universidade Pace, Beyoncé vive um dilema típico de mulheres negras poderosas: “Há uma expectativa de que ela fale sobre tudo, se posicione sobre tudo, sem falhas. É um padrão inalcançável.”Mesmo sem declarações diretas, Beyoncé inclui referências políticas em sua arte. Um exemplo está no livro visual da turnê, que a mostra costurando a bandeira dos EUA — imagem inspirada em Grace Wisher, jovem negra que ajudou a confeccionar a bandeira original. O vestido branco com véu salpicado de sangue remete à metáfora do “véu” de W.E.B. Du Bois sobre a segregação racial.
Para Williams, Cowboy Carter foi um risco — estético, simbólico e estratégico. “Ela fala com sua arte. E isso já provoca uma reflexão social profunda.”
Stacy Lee Kong concorda: “Mesmo sem declarações públicas, Beyoncé está estimulando conversas necessárias. Talvez não da forma como alguns esperam, mas elas estão acontecendo.”
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