6/20/2026 07:49:00 AM
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Pelo menos 30 pessoas morreram desde o início de maio no campo de deslocados de Kigonze, localizado em Bunia, no nordeste da República Democrática do Congo. O aumento repentino de óbitos tem gerado preocupação entre autoridades e organizações humanitárias, especialmente após a confirmação de casos de ebola entre algumas das vítimas.
O campo abriga mais de 15 mil pessoas que deixaram suas casas devido aos conflitos armados que afetam a região. De acordo com a administração local, o número de mortes registrado nas últimas semanas foge completamente do padrão observado anteriormente. Enquanto Kigonze costumava registrar entre uma e três mortes por mês, somente nesta semana dez moradores foram enterrados.
Apesar da gravidade da situação, a dimensão real do problema ainda não é totalmente conhecida. Até recentemente, familiares e moradores vinham rejeitando a realização de exames em pacientes e corpos, dificultando a identificação das causas dos óbitos e o monitoramento da doença.
Relatos de trabalhadores humanitários, líderes comunitários e representantes do campo indicam que muitas das vítimas apresentavam sintomas frequentemente associados ao ebola, incluindo febre, dores de cabeça e vômitos.
“Antes as pessoas não morriam assim”, afirmou à Reuters o porta-voz do campo, Desire Grodya Bapi.
Segundo ele, equipes médicas conseguiram recolher amostras de cinco vítimas, e parte dos testes confirmou a presença do vírus. Fontes envolvidas na resposta humanitária também relataram que alguns dos mortos registrados nos últimos dias tiveram diagnóstico positivo para ebola.
Embora o atual surto tenha sido oficialmente declarado pelas autoridades congolesas em 15 de maio, registros apontam que mortes relacionadas à doença já haviam ocorrido antes do anúncio.
Preocupação com transmissão silenciosa
O aumento dos óbitos em Kigonze levantou temores sobre a possibilidade de o vírus estar circulando sem ser detectado entre comunidades deslocadas. A região leste do Congo concentra mais de 5 milhões de pessoas forçadas a abandonar suas residências por causa da violência.Profissionais humanitários alertam que as dificuldades para realizar testes e identificar contatos de pessoas infectadas podem favorecer a continuidade da transmissão sem que os casos sejam rapidamente identificados.
Registros feitos no campo mostram equipes especializadas utilizando equipamentos de proteção para desinfetar corpos antes dos sepultamentos. Entre as vítimas estariam crianças e uma mulher grávida.
Falta de saneamento amplia riscos
As condições de infraestrutura em Kigonze são apontadas por organizações humanitárias como um fator adicional de preocupação. Famílias numerosas vivem em abrigos improvisados construídos muito próximos uns dos outros, enquanto a quantidade de banheiros disponível é considerada insuficiente para atender toda a população.Moradores e trabalhadores da área relatam que as instalações sanitárias frequentemente transbordam, aumentando o risco de disseminação de doenças infecciosas. O cenário é especialmente preocupante porque o ebola pode ser transmitido pelo contato direto com fluidos corporais de pessoas infectadas, incluindo sangue, vômito e fezes.
Dados das Nações Unidas indicam que os recursos destinados a projetos de água, saneamento e higiene na República Democrática do Congo sofreram forte redução entre 2024 e 2025. O financiamento disponível caiu para aproximadamente US$ 38 milhões, pouco mais da metade do valor registrado no ano anterior.
Além disso, apenas 21% dos US$ 80 milhões solicitados pelas agências humanitárias para este ano foram efetivamente recebidos.
Quatro organizações que atuam na região informaram que programas voltados ao abastecimento de água, construção de sanitários e outras iniciativas de saneamento para populações deslocadas foram reduzidos ou suspensos após cortes em financiamentos internacionais.
A província de Ituri, onde está localizada Bunia, concentra mais de 90% dos cerca de 900 casos confirmados do atual surto de ebola no país. Casos fatais relacionados à doença também foram registrados em outros campos de deslocados da região.
Enquanto isso, autoridades de saúde seguem ampliando as ações de testagem e rastreamento de contatos na tentativa de conter a propagação do vírus. No entanto, enfrentam obstáculos que incluem a resistência de parte da população, limitações estruturais e os desafios impostos por anos de instabilidade e deslocamentos em massa.
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