Ícone do Widget

Relacionado

×

O novo álbum da Lizzo ficou fora das paradas. O que aconteceu?

Tempo de leitura: ...

Não há como negar que Lizzo é uma figura única na música pop contemporânea. Após ganhar projeção em 2019, ela acumulou uma série de sucessos com faixas amplamente tocadas como “Juice”, “About Damn Time” e “Good as Hell”, além de conquistar Grammys e outros prêmios importantes. Fugindo do padrão tradicional do pop, ela misturou elementos de metais com influência funk, batidas de hip hop e até flauta em sua identidade sonora. Apesar dos hits marcantes, sempre ficou a dúvida: existe um “som Lizzo” bem definido? A resposta depende da faixa.

A artista iniciou o processo de criação de seu quinto álbum de estúdio, intitulado Bitch, há cerca de quatro anos. Durante esse período, o projeto passou por diversas mudanças de direção. Inicialmente, o disco seria lançado sob o nome Love in Real Life (2025), impulsionado por um single de mesmo nome e pela faixa disco-pop “Still Bad”, divulgados no ano passado. Enquanto Lizzo ainda ajustava o conceito do álbum, parte do público pop já parecia ter formado uma opinião sobre sua trajetória.

O álbum Bitch chegou às plataformas em 5 de junho, via Atlantic Records. Na primeira semana, registrou 2.649 cópias vendidas e cerca de 2,7 milhões de streams sob demanda, segundo dados da Luminate. Na semana seguinte, os números caíram para 650 unidades vendidas e menos de 900 mil streams. O desempenho contrasta fortemente com o álbum anterior, Special (2022), que estreou com 39 mil cópias vendidas e 69 mil unidades equivalentes, alcançando o segundo lugar na Billboard 200. Desta vez, Bitch não conseguiu entrar no ranking. Ainda que o intervalo de lançamentos possa influenciar, ele não explica sozinho a queda tão acentuada.

““Acho que o maior motivo é que ela nunca teve uma base de fãs central, de verdade”, disse à Rolling Stone um ex-executivo sênior de gravadora, que pediu anonimato. “Ela era uma artista muito movida a músicas e hits de rádio, que não tinha um núcleo de fãs — e é isso que você precisa hoje para ter longevidade.” A própria Lizzo considerou essa perspectiva. No começo do mês, ela atribuiu a limitação do público às mudanças percebidas no principal modelo de consumo de música. “A indústria mudou tanto nos últimos três anos. O streaming substituiu o rádio e eu era queridinha do rádio”, ela escreveu no X. “Foi assim que meus fãs descobriram minha música”.

O single mais recente da artista a aparecer no Hot 100 foi “Special”, parceria com SZA, que permaneceu 10 semanas na parada em 2023. Embora tenha alcançado a posição 52, chegou ao 19º lugar no Radio Songs e ao 15º no Pop Airplay. O sucesso de Special (2022) foi impulsionado principalmente pelos singles “About Damn Time” e “2 Be Loved (Am I Ready)”.

“Eu falo como empresário: para mim isso é tudo papo furado”, diz à Rolling Stone o comentarista da indústria Ray Daniels, ao culpar o streaming. “Se você sabe que a indústria está mudando, deveria estar avisando seus fãs com antecedência. Por que você não está dizendo para eles pedirem sua música no rádio? Eles são seus fãs, vão fazer o que você pedir.” Ainda assim, há o fator de que a relação entre Lizzo e parte do público se desgastou nos últimos anos.

No mesmo comunicado, Lizzo mencionou “o ataque muito óbvio e público à minha carreira”, que teria influenciado a percepção sobre ela. Em 2023, ex-integrantes de sua equipe de dança entraram com um processo acusando a artista de assédio sexual, ambiente de trabalho hostil e gordofobia — caso que ainda não foi concluído. No mês passado, ela falou ao CBS Mornings e afirmou que prefere enfrentar um julgamento a aceitar um acordo. “Eu não tenho medo da verdade”, acrescentou. “A verdade é menos sensacionalista do que as manchetes.”

“Uma parte grande da marca dela era ser a azarona e muito autoconfiante, ‘eu sou quem eu sou’, eu apoio todo mundo, positividade corporal”, continuou o ex-executivo. “E quando você é cobrada pelo mau tratamento exatamente daquilo que você dizia ser, entre aspas, a sua ‘marca’, aí os fãs não querem mais ver você vencer e vão embora.”

Nos três anos entre Special (2022) e Bitch, Lizzo passou a experimentar novas direções criativas, lançando músicas mais distantes do som associado ao seu auge comercial. A mixtape de 2025 My Face Hurts From Smiling (2025) trouxe colaborações com produtores como Ricky Reed e Zaytoven, marcando um retorno mais forte ao rap. Seu primeiro álbum, Lizzobangers (2013), já explorava esse gênero, embora muitos ouvintes que a conheceram a partir de Cuz I Love You (2019) não tivessem contato com essa fase inicial, que inclusive ficou temporariamente fora das plataformas durante sua campanha ao Grammy.

“Essa mixtape é tipo: ‘Eu vou falar logo. Eu não tô nem aí. Beleza’: ‘Eu já fui gorda e já fui magra/As vadias ainda não me dão moral’”, disse Lizzo à Rolling Stone no ano passado. “Eu não acho que isso caberia numa música da Lizzo. Eu teria morrido de medo de colocar isso em algo como “About Damn Time” ou “Juice””. Já Bitch, apesar de ter sido produzido em paralelo a My Face Hurts From Smiling (2025), segue mais próximo do pop e R&B, ainda que com letras supostamente mais moderadas para alcançar maior público.

“Musicalmente, eu não sei o que ela tem feito”, diz à Rolling Stone outro executivo veterano da indústria. “Eu presumo que ela não esteja fazendo os discos como antes — aqueles que ressoavam do mesmo jeito — porque eram muito contagiosos e ‘formatados’, um pop meio doo-wop, com aquela linguagem debochada de meme.” Em uma análise do álbum, a Rolling Stone escreveu: “Bitch está cheio de movimentos cansados e apelos cínicos ao algoritmo do streaming.”

Até o momento, nenhum dos três singles de Bitch conseguiu tração significativa em rádio ou streaming. “Don’t Make Me Love U”, lançado em março, foi seguido pela faixa-título “Bitch”, em maio, e por “Sexy Ladies”, promovida como single logo após o lançamento do álbum. Esta última, parceria com a banda de D.C. UCB e produzida com Tay Keith, aparece como a aposta mais forte do projeto, com sonoridade voltada ao verão e potencial de alcance mais amplo.

A discussão também passa pelo custo e pela estratégia de divulgação. Em décadas anteriores, gravadoras investiam pesado na promoção no rádio para garantir exposição massiva, o que impulsionava vendas e turnês. Hoje, o alcance depende mais de métricas digitais e campanhas fragmentadas. Isso levanta dúvidas sobre autenticidade e eficiência da promoção em redes sociais, além do nível de investimento real das gravadoras em seus artistas.

“Eles vão fazer o mínimo e dar para ela um lançamento que parece que estão gastando alguma coisa, mas é super fraco, provavelmente não vai ser muito ‘campeonado’, certo? E se alguma coisa pegar, ótimo. Porque foi isso que aconteceu da última vez.”

Lizzo assinou com a Atlantic Records em 2016, antes de “Truth Hurts” explodir após aparecer no filme Someone Great (2019) e viralizar no TikTok. A faixa ultrapassou 1 bilhão de streams no Spotify. “Foi um acaso ela estourar”, disse o executivo veterano. “Ninguém foi lá e colocou milhões de dólares por trás dela.” (A estrutura de liderança da gravadora mudou desde então.)

A artista aproveitou o sucesso rapidamente, com aparições em programas como Saturday Night Live, além de prêmios importantes como o Grammy de Melhor Performance Pop Solo por “Truth Hurts” e de Melhor Álbum de Urban Contemporary por Cuz I Love You (2019). Ela também venceu Gravação do Ano com “About Damn Time” em 2023. “Ela está posicionada para ser muito mais bem-sucedida do que muitos artistas, então é desconcertante”, afirmou o executivo. “Mas isso também mostra um fato clássico do lado sombrio da indústria: a indústria musical não se importa nem um pouco com seus artistas ‘de legado’. Se você cai, você vira literalmente nada para as gravadoras — ou para qualquer coisa.”

Em maio, Lizzo assumiu a divulgação de Bitch de forma independente. “Minha gravadora não vai colar pôsteres, então eu vou fazer isso eu mesma”, disse em um vídeo nas redes sociais, mostrando-se promovendo o álbum sozinha. “Você tem 26,4 milhões de pessoas que te seguem no TikTok e 11,2 milhões no Instagram — gente para quem você pode apertar um botão e falar — e ainda assim você está culpando a gravadora”, diz Daniels. “Você quer me dizer que, em vez de falar com os fãs sobre sua música, você está falando com os fãs sobre como a gravadora não está promovendo sua música?”

Hoje, muitas gravadoras avaliam o potencial de um artista a partir de métricas já estabelecidas, reduzindo riscos de investimento. Sem garantias de retorno em streams ou vendas, o apoio tende a ser mais cauteloso. “É muito político e tem muito a ver com para onde o dinheiro está indo. Em todo lugar é assim. É sobre dinheiro e poder por trás de um artista”, disse o executivo veterano. “Por isso os artistas amavam Clive Davis e Jimmy Iovine, porque eles pegariam uma Lizzo e a ergueriam se ela não estivesse indo tão bem.”

Enquanto isso, outros artistas pop seguem encontrando caminhos de reinvenção e sucesso em ciclos longos, mesmo após períodos de baixa visibilidade. “Acho que sempre há esperança para todo artista. Um hit cura tudo”, disse o executivo veterano. “Mas pode levar muitos anos — ou pode nunca acontecer.”

Sobre o futuro de Lizzo, a leitura é de que a trajetória ainda está em aberto. “Eu não acho que ela acabou de forma alguma”, diz Daniels. “Isso é só um momento para lembrá-la de que ainda há trabalho a fazer.”

Comentários