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A economia do paradoxo: como a Noruega enriqueceu com o petróleo e lidera a transição para a energia limpa

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A seleção brasileira terá a Noruega como próximo adversário na Copa do Mundo de 2026. Fora dos gramados, porém, o país também chama atenção por um modelo econômico que combina liderança em energia limpa com a continuidade da exploração de petróleo e gás natural.

Embora a convivência entre essas duas frentes pareça contraditória, elas fazem parte da estratégia adotada pelo governo norueguês para promover a transição para uma economia de baixo carbono sem abandonar, por enquanto, uma das atividades mais importantes para sua arrecadação.

A experiência da Noruega se tornou referência em um debate global: de que forma é possível equilibrar desenvolvimento econômico, segurança energética e metas de redução das emissões de carbono em meio à transição energética.

Produção de petróleo continua estratégica

Mesmo sendo reconhecida pelos investimentos em fontes renováveis, a Noruega permanece entre os principais produtores de petróleo do mundo e ocupa posição de destaque no mercado internacional de gás natural, segundo a Agência Internacional de Energia (IEA).

Nesse cenário, o governo defende que manter a produção de petróleo e gás não impede o cumprimento de seus compromissos ambientais.

Informações divulgadas pelo Ministério da Energia e pela Diretoria Norueguesa de Offshore indicam que o setor segue como a principal fonte de receitas de exportação e arrecadação pública. As autoridades também argumentam que o gás natural pode contribuir para a redução das emissões em outros países ao substituir usinas movidas a carvão, diminuindo a liberação de gases de efeito estufa e melhorando a qualidade do ar.

O governo também destaca que o gás desempenha papel importante como complemento às fontes renováveis, como energia solar e eólica, cuja geração depende das condições climáticas.

“À medida que a Europa incorpora cada vez mais fontes renováveis intermitentes, aumenta a necessidade da flexibilidade que o gás pode oferecer para equilibrar as oscilações no fornecimento de energia e garantir um abastecimento confiável aos consumidores”, afirma o governo norueguês.

Apesar dessa posição, especialistas apontam desafios para países que dependem da exploração de recursos naturais.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) avalia que as receitas obtidas com petróleo e gás representam uma “espada de dois gumes”: ao mesmo tempo em que fortalecem a economia, também podem dificultar a diversificação produtiva e comprometer o crescimento sustentável no longo prazo.

No caso da Noruega, o organismo reconhece que o país estruturou um sistema sólido para administrar essa riqueza ao longo das últimas décadas. Ainda assim, alerta que a abundância de recursos naturais pode incentivar governos a concentrar esforços na obtenção dessas receitas, reduzindo o foco em reformas estruturais, produtividade e expansão de setores fora da indústria petrolífera.

Fundo soberano impulsiona investimentos

Para administrar os recursos provenientes da exploração de petróleo e gás, a Noruega criou o Government Pension Fund Global (GPFG), um fundo soberano responsável por transformar essa renda em investimentos financeiros voltados às futuras gerações.

Segundo o próprio GPFG, a iniciativa busca proteger a economia das oscilações do mercado internacional de petróleo e preservar esse patrimônio no longo prazo.

No encerramento de 2025, o fundo acumulava aproximadamente 21,3 trilhões de coroas norueguesas — cerca de R$ 11,2 trilhões —, o equivalente a aproximadamente 3,8 milhões de coroas (R$ 2 milhões) por habitante.

Além de manter participação em milhares de empresas ao redor do mundo, o fundo segue critérios ambientais e sociais para orientar seus investimentos e amplia, gradualmente, a participação em projetos ligados à infraestrutura de energia renovável.

Outro fator que favoreceu a transição energética foi a matriz elétrica do país. Dados da IEA apontam que cerca de 89% da eletricidade produzida na Noruega tem origem em usinas hidrelétricas, permitindo a eletrificação de residências, indústrias e do setor de transportes.

Esse processo fez da Noruega uma referência mundial na adoção de veículos elétricos. Após décadas de incentivos governamentais, o país alcançou uma das maiores participações desses automóveis no mercado.

Com o crescimento da frota elétrica, parte dos benefícios concedidos aos consumidores começou a ser reduzida gradualmente como forma de preservar a arrecadação pública.

O relatório Global EV Outlook 2025, da IEA, aponta que, desde 2021, o consumo de petróleo no transporte rodoviário caiu cerca de 12%, resultado da substituição progressiva de veículos movidos a combustíveis fósseis por modelos elétricos.

Além dos incentivos à eletrificação, a legislação norueguesa estabelece metas obrigatórias para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Os municípios passaram a contar com mecanismos para implantar zonas de emissão zero, exigir critérios ambientais em obras públicas e ampliar políticas voltadas à gestão de resíduos.

A própria indústria de petróleo também adotou medidas para diminuir sua pegada de carbono. Entre elas está o projeto Hywind Tampen, considerado o maior parque eólico flutuante do mundo, desenvolvido para fornecer energia renovável às plataformas de petróleo e gás instaladas no Mar do Norte, reduzindo as emissões durante a produção.

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