7/12/2026 10:32:00 AM
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Passados quase dois anos da captura de Ismael “El Mayo” Zambada, um dos fundadores do Cartel de Sinaloa, o conflito interno desencadeado pela prisão continua provocando violência no estado de Sinaloa, no noroeste do México. A disputa pelo controle da organização criminosa permanece ativa, enquanto o tráfico de fentanil segue operando, apesar do aumento das apreensões realizadas pelas autoridades mexicanas.
As conclusões fazem parte de um relatório divulgado na terça-feira (7) pela organização não governamental International Crisis Group. O estudo reúne entrevistas com autoridades, pesquisadores, ativistas e moradores da região.
A publicação ocorreu um dia após Zambada aceitar cumprir pena de prisão perpétua, solicitando apenas que seja transferido para uma unidade prisional onde possa receber atendimento médico adequado. O narcotraficante havia admitido culpa por tráfico de drogas em agosto de 2025 e deverá conhecer sua sentença definitiva em 20 de julho.
Disputa entre Mayos e Chapitos
A prisão de Zambada aconteceu no fim de julho de 2024, em território americano. Cofundador do Cartel de Sinaloa ao lado de Joaquín “El Chapo” Guzmán, ele afirma ter sido enganado por Joaquín Guzmán López, um dos filhos de El Chapo, que o convenceu a embarcar em um avião rumo aos Estados Unidos, onde ambos acabaram detidos.O episódio provocou um impasse diplomático entre México e Estados Unidos. O governo mexicano continua cobrando explicações detalhadas sobre as circunstâncias da captura do traficante.
Dentro do Cartel de Sinaloa, porém, as consequências foram ainda maiores. A prisão abriu espaço para uma disputa pelo comando da organização entre Los Mayos, grupo ligado a Zambada, e Los Chapitos, facção formada pelos filhos de El Chapo. Desde então, centenas de homicídios e diversos episódios de violência foram registrados na tentativa de controlar uma das maiores organizações criminosas da América.
“A violenta ruptura no Cartel de Sinaloa se tornou uma das maiores crises de segurança enfrentadas pela presidente mexicana Claudia Sheinbaum”, afirma o relatório do International Crisis Group, que descreve como Los Mayos e Los Chapitos estão em confronto desde setembro de 2024 para conquistar espaço nas principais cidades de Sinaloa, Culiacán e Mazatlán, além de outras localidades.
Segundo o documento, o confronto envolve armamentos pesados, veículos blindados e até drones, ampliando os níveis de violência e afetando a rotina da população em diferentes regiões do estado. O estudo também destaca que ambas as facções recorrem ao terror como forma de enfraquecer o grupo rival.
“A brutalidade é resultado de três fatores. Primeiro, ambas as facções buscam infligir o máximo de crueldade possível uma contra a outra como forma de vingança. Segundo, a necessidade de novos integrantes levou os grupos a recorrerem a jovens assassinos com pouca experiência, que podem ter menos resistência em relação à violência que cometem (…). Em terceiro lugar, as facções estão adotando táticas de outros grupos criminosos que, segundo elas, demonstram força ou ajudam a consolidar sua reputação”, detalha o relatório.
Além das duas principais facções, o International Crisis Group afirma que atualmente existem outros dois grandes grupos dentro do Cartel de Sinaloa. Um deles é comandado por Aureliano Guzmán, conhecido como “El Guano”, irmão de El Chapo. O outro reúne remanescentes da antiga organização dos irmãos Beltrán Leyva e é liderado por Fausto Isidro Meza Flores, o “El Chapo Isidro”.
“Esses quatro grupos operam em alianças em constante mudança com células menores, das quais o Crisis Group contabilizou pelo menos 20. Eles também colaboram com vários líderes individuais em todo o estado”, diz o relatório.
Violência persiste e tráfico de fentanil continua
O estudo aponta que o conflito interno levou Sinaloa a enfrentar um dos períodos mais violentos de sua história recente.Dados oficiais mostram que, entre setembro de 2024, quando começaram os confrontos entre as facções, e maio deste ano, foram registrados 2.829 homicídios dolosos no estado. Somente em 2025 ocorreram 1.656 assassinatos, tornando o ano o mais violento para Sinaloa em pelo menos dez anos.
Embora o reforço das forças militares determinado pelo governo de Claudia Sheinbaum tenha reduzido confrontos públicos e bloqueios em cidades como Culiacán, a violência não foi interrompida. De acordo com o relatório, ela apenas migrou para regiões rurais.
Outro ponto destacado é que o aumento das apreensões de drogas e das prisões não resultou em uma redução significativa da produção ou do envio de fentanil para os Estados Unidos. Conforme autoridades e especialistas ouvidos pela organização, diversos grupos criminosos passaram a priorizar a droga sintética por ser mais barata de fabricar e oferecer maior rentabilidade.
O International Crisis Group acrescenta que usuários de fentanil nas cidades de Tijuana, no México, e San Diego, nos Estados Unidos, não perceberam alterações na oferta nem no preço da substância, comercializada em pequenas quantidades por aproximadamente US$ 3.
“A violência se intensificou nas áreas rurais, enquanto os assassinatos e os desaparecimentos, inclusive de pessoas sem ligação com as facções em conflito, continuam ocorrendo em um ritmo alarmante. Em essência, as autoridades federais ainda estão longe de expulsar os grupos criminosos de Sinaloa das áreas que controlam ou de cortar suas fontes de renda”, afirma o relatório.
Pressão dos Estados Unidos
A disputa entre as facções ocorre em meio ao aumento das pressões exercidas pelos Estados Unidos sobre o México no combate ao crime organizado e ao tráfico de drogas.Em fevereiro de 2025, durante o segundo mandato de Donald Trump, o governo americano classificou o Cartel de Sinaloa como organização terrorista estrangeira, medida que também atingiu outros cartéis mexicanos, como Jalisco Nova Geração, do Golfo, do Nordeste, Unidos e La Nueva Familia Michoacana.
O combate ao tráfico de fentanil segue entre as principais prioridades das autoridades americanas.
As tensões aumentaram novamente no fim de abril, quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos acusou o governador de Sinaloa, Rubén Rocha, além de outros nove atuais e ex-integrantes do governo estadual, de envolvimento com o narcotráfico. Todos negam as acusações.
A presidente Claudia Sheinbaum afirma que Washington ainda não apresentou provas suficientes para justificar pedidos de prisão provisória com fins de extradição. Segundo ela, a Procuradoria-Geral da República do México conduz investigações e adotará as medidas necessárias caso sejam encontradas evidências.
O International Crisis Group observa que Sheinbaum sustenta essa posição em defesa da soberania nacional, mas recomenda que o governo mexicano trate as denúncias contra autoridades públicas com maior rigor.
A organização defende o fortalecimento da produção de inteligência, o aprofundamento das investigações e o encaminhamento dos casos à Justiça quando houver elementos suficientes.
“Processar judicialmente os crimes violentos e os delitos graves relacionados ao narcotráfico, assim como iniciar investigações judiciais destinadas a desmantelar as redes de corrupção que perpetuaram a criminalidade em Sinaloa, são medidas cruciais tanto para o bem-estar do estado quanto para a segurança do México como um todo”, afirma o relatório.
“Enquanto as raízes do domínio exercido pelo crime organizado não forem enfrentadas, Sinaloa e outras regiões do México continuarão vivendo com medo. O México não deve permitir que a ameaça de uma intervenção americana equivocada ofusque a necessidade de realizar mudanças profundas por conta própria.”
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