7/15/2026 11:08:00 AM
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O posicionamento do jornal britânico The Guardian sobre a disputa entre Brasil e Estados Unidos colocou em destaque as recentes pressões comerciais do governo de Donald Trump e seus reflexos sobre temas considerados estratégicos para o país. Em editorial publicado na terça-feira (14), o veículo sustenta que as medidas defendidas pela Casa Branca extrapolam a esfera econômica e atingem diretamente a autonomia brasileira.
O debate ocorre enquanto o governo norte-americano prepara uma decisão, prevista para esta quarta-feira (15), sobre a adoção de novas tarifas contra produtos brasileiros. A medida integra uma investigação conduzida pelos Estados Unidos a respeito de práticas comerciais classificadas pela Casa Branca como desleais, incluindo críticas ao sistema de pagamentos instantâneos Pix.
Na avaliação do jornal, as ações anunciadas por Trump também têm impacto sobre o cenário político brasileiro. “A ameaça de tarifas de Donald Trump enquadra os esforços do Brasil para proteger sua democracia como uma prática comercial desleal — e confere ao bolsonarismo um palco em Washington”, afirma o editorial.
O texto também aborda as diferenças entre a visão do presidente norte-americano e a do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em relação ao papel do Estado na regulação do ambiente digital. “Trump rejeita a defesa” que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz da soberania brasileira.
Segundo o editorial, “Lula quer que o Brasil tenha capacidade de fiscalizar a desinformação antidemocrática [dentro do país]. Trump acredita que os EUA deveriam ter jurisdição sobre o espaço informacional do país”.
Ao tratar das decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF), o periódico lembra que, em junho, a Corte ampliou a responsabilização de plataformas digitais por determinados conteúdos publicados por usuários. O jornal afirma que o STF “reagiu às mentiras online que ajudaram a alimentar a tentativa fracassada de golpe de extrema-direita liderada por Jair Bolsonaro em 2023”. Conforme o editorial, a decisão obriga empresas como a X, de Elon Musk, e a Meta, de Mark Zuckerberg, a remover discursos de ódio e conteúdos considerados antidemocráticos.
Na sequência, o jornal relaciona essas decisões às medidas comerciais anunciadas pelos Estados Unidos. “Um mês depois, Donald Trump propôs uma tarifa de 25% sobre as importações brasileiras, queixando-se de que os juízes haviam obrigado empresas de tecnologia dos EUA a retirar do ar material ‘político’”, afirma o jornal britânico.
Outro ponto destacado pelo editorial envolve o Pix. Para o The Guardian, a discussão sobre o sistema de pagamentos também está ligada ao controle da infraestrutura financeira. “Outra questão de soberania diz respeito a quem controla a infraestrutura financeira do Brasil e se é possível existir, na América Latina, uma infraestrutura pública de pagamentos bem-sucedida que não esteja sob controle americano”, escreve o jornal.
Na mesma análise, o veículo acrescenta: “Assim como a Índia, o Brasil construiu uma infraestrutura pública digital [o Pix] projetada para reduzir a dependência de redes de pagamento controladas por estrangeiros e proteger seu sistema doméstico de pagamentos contra pressões ou sanções externas. Na prática, o sistema contorna as redes de cartão nos moldes da Visa e da Mastercard, ameaçando os lucros dessas empresas.”
O editorial ainda comenta o cenário eleitoral brasileiro. O jornal cita pesquisas em que Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparecem à frente na disputa presidencial e traça um perfil político do parlamentar. “[Flávio] Bolsonaro é menos carismático que seu pai, mas está baseado no mesmo antiesquerdismo simplista, nas mesmas políticas punitivas de ‘lei e ordem’ e nas mesmas guerras culturais de extrema-direita”, afirma o jornal.
Sobre a atuação do senador em relação às tarifas, o periódico classifica sua iniciativa como incomum. O Guardian disse que o pedido de Flávio Bolsonaro a Trump para que evite tarifas contra o Brasil até as eleições de outubro foi “extremamente audacioso”.
Em relação ao atual presidente brasileiro, o editorial apresenta um histórico de sua trajetória política e social. Já Lula é descrito como um dos políticos “mais bem-sucedidos deste século”.
“De operário a líder sindical e fundador de partido, Lula fez da redistribuição a linguagem da democracia brasileira. A pobreza extrema caiu de 30 milhões em 2002 para menos de 7 milhões atualmente. Ele governou de 2003 a 2011. A política brasileira é polarizada: Lula só retornou em 2023 depois que juízes anularam condenações por corrupção.”
Ao concluir sua análise, o The Guardian sustenta que o principal motivo das críticas dirigidas ao Brasil não seria sua política comercial. “A verdadeira infração [do Brasil] não é o protecionismo, mas a autonomia”, escreve o Guardian.
O editorial encerra afirmando: “Trump rebatizou essa soberania brasileira como discriminação comercial injusta. É tão previsível quanto preocupante que o bolsonarismo esteja disposto a embarcar nessa narrativa.”
Com informações da BBC
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