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Vídeo mostra migrantes escalando telhados na fronteira entre Marrocos e Espanha

Milhares de migrantes tentaram entrar em Ceuta por terra e mar, enquanto vídeos registraram pessoas sobre telhados na região de fronteira

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A chegada de dezenas de milhares de migrantes a Ceuta em um intervalo de apenas 24 horas provocou uma das maiores crises migratórias enfrentadas pela Espanha nos últimos anos, mobilizando autoridades dos dois lados da fronteira e ampliando as tensões políticas dentro da União Europeia. O governo espanhol informou nesta sexta-feira (31) que aproximadamente 49 mil pessoas alcançaram o enclave espanhol no Norte da África por rotas terrestres e marítimas vindas de Marrocos.

Depois da onda de travessias, Espanha e Marrocos intensificaram o controle da fronteira com o reforço da cerca que separa os territórios. As medidas contribuíram para interromper, ao menos temporariamente, o fluxo em massa registrado anteriormente. Durante a operação, pelo menos 19 corpos foram encontrados no mar.

Enquanto a situação se agravava em Ceuta, imagens registradas por uma testemunha ocular mostraram uma multidão ocupando prédios e concentrando-se no complexo fronteiriço de Beni Ansar, no lado marroquino da divisa com Melilla. A Reuters confirmou a localização das gravações comparando edifícios, torres de telecomunicações e o traçado das vias com imagens de satélite e arquivos da região. Embora a data exata das filmagens não tenha sido confirmada, a agência informou que não encontrou registros anteriores do vídeo publicados antes de 30 de julho.

Beni Ansar permanece como a única passagem aberta entre Marrocos e Melilla nos últimos seis anos. Já Ceuta e Melilla, cidades autônomas espanholas localizadas no Norte da África, representam as únicas fronteiras terrestres entre a União Europeia e o continente africano. Cada uma possui cerca de 85 mil habitantes e frequentemente registra tentativas de entrada irregular de migrantes que buscam chegar ao território europeu. Ainda assim, a movimentação de quase 50 mil pessoas em apenas um dia foi considerada sem precedentes, levando a Espanha a classificar o episódio como sua maior crise migratória desde, pelo menos, 2021.

Na quinta-feira (30), vídeos mostraram centenas de pessoas atravessando o mar com auxílio de boias ou nadando em direção a Ceuta, enquanto outros grupos romperam um portão na fronteira terrestre e correram para o interior da cidade. Em resposta, Madri enviou unidades militares para reforçar o policiamento no enclave.

Nos acessos à cidade, forças marroquinas utilizaram caminhões equipados com canhões de água para dispersar os grupos que tentavam avançar. Próximo à área de confronto, era possível ver os restos queimados de um ônibus e de sete automóveis, destruídos durante os distúrbios.

As autoridades espanholas afirmaram que pretendem acelerar a retirada daqueles que entraram de forma irregular, embora uma decisão judicial recente tenha estabelecido novas limitações às chamadas regras de “rejeição de fronteira”, mecanismo que permite expulsões imediatas em determinadas circunstâncias.

O primeiro-ministro Pedro Sánchez tinha agenda prevista para visitar Ceuta nesta sexta-feira (31), acompanhado pelo ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, diante da gravidade da situação.

O ministro da Política Territorial, Ángel Víctor Torres, avaliou que uma das razões para o aumento das tentativas de travessia pode estar relacionada a uma decisão do Supremo Tribunal da Espanha, tomada no início deste mês. O entendimento da Corte impede a devolução imediata de migrantes interceptados no mar enquanto tentavam alcançar Ceuta ou Melilla com base nas regras especiais anteriormente aplicadas.

Em entrevista a uma rádio local, Torres afirmou que o Executivo respondeu prontamente à crise e garantiu que o retorno dos migrantes será conduzido em conformidade com as determinações judiciais e com a proteção de seus direitos.

No lado marroquino da fronteira, milhares de migrantes ocuparam a cidade de Fnideq durante a noite, mesmo diante do reforço das forças de segurança. Embora a vigilância tenha reduzido a maior parte das tentativas de cruzamento, grupos continuavam percorrendo a faixa litorânea em busca de caminhos alternativos para ultrapassar a cerca, enquanto outros se preparavam para entrar no mar.

“Cheguei atrasado”, disse Brahim, de 32 anos, que se identificou apenas pelo primeiro nome. Ele contou que havia chegado de Tânger na esperança de atravessar pelo portão, mas o encontrou praticamente fechado.

Entre os migrantes estavam mulheres, crianças, cidadãos marroquinos e pessoas originárias de países da África Subsaariana.

A associação da Guarda Civil espanhola, AUGC, publicou uma mensagem na rede social X afirmando que o número de agentes destacados para monitorar a cerca durante a quinta-feira (30) era insuficiente para conter o fluxo de pessoas.

“As políticas migratórias exigem uma revisão profunda que leve em conta a realidade da fronteira sul e garanta o respeito à dignidade e aos direitos humanos dos migrantes e refugiados que chegam a Ceuta”, afirmou um comunicado conjunto de diversos grupos locais de apoio a migrantes, acrescentando que os recursos em Ceuta são insuficientes.

A crise também provocou repercussões políticas em outros países europeus. A migração continua sendo um dos temas mais sensíveis no continente desde 2015, quando mais de um milhão de pessoas chegaram à Europa em busca de asilo, principalmente fugindo da guerra na Síria, cenário que contribuiu para o fortalecimento de partidos de direita em diversos países.

A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, afirmou que seu governo está preparado “para intervir com medidas extraordinárias para defender as fronteiras e a segurança dos cidadãos, incluindo a suspensão do Espaço Schengen com a Espanha”, em referência ao sistema de livre circulação entre países da União Europeia.

Embora o governo espanhol sustente uma política rigorosa contra as entradas ilegais, também defende que a imigração fortalece a economia do país e lembra que promoveu uma ampla regularização migratória que permitiu a centenas de milhares de pessoas solicitarem cidadania no último ano.

“As imagens vindas de Ceuta mostram como a decisão do governo de Madri de conceder cidadania espanhola, e consequentemente europeia, a mais de 500 mil imigrantes irregulares é profundamente equivocada e incentiva o tráfico de pessoas”, escreveu o ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani.

Em resposta, o chanceler espanhol, José Manuel Albares, classificou a declaração do colega italiano como “inapropriada” e afirmou que a Espanha esperava “solidariedade e não demagogia partidária” de seu parceiro. Segundo ele, o governo espanhol também convocaria o embaixador da Itália para apresentar um protesto diplomático.

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