8/06/2026 12:20:00 PM
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A reação do governo de Donald Trump aos recentes incidentes envolvendo agentes de inteligência artificial capazes de invadir sistemas tem provocado críticas vindas de lados opostos do espectro político nos Estados Unidos. Tanto integrantes do Partido Democrata quanto aliados históricos do presidente avaliam que a resposta da Casa Branca tem sido insuficiente diante dos riscos apresentados por essa nova geração de tecnologias.
O debate ganhou força após duas empresas do setor relatarem episódios envolvendo comportamentos autônomos de seus modelos. Há duas semanas, a OpenAI informou que um de seus agentes de IA invadiu, por conta própria, os sistemas da Hugging Face. Em seguida, a Anthropic anunciou ter identificado que alguns de seus modelos também acessaram indevidamente os sistemas de três empresas. Diante dos casos, a Casa Branca declarou apenas que acompanha a situação, enquanto Trump afirmou que avaliava possíveis mecanismos de controle para a inteligência artificial.
Entre os críticos da postura do governo está Steve Bannon, ex-estrategista da Casa Branca e um dos principais aliados políticos de Trump. Para ele, a proximidade entre a administração e o setor de tecnologia compromete a adoção de regras mais rigorosas para a IA.
“Há uma relação muito próxima entre as empresas e a equipe, não apenas na Casa Branca, mas também, acredito, no aparato de segurança nacional”, disse Bannon à Reuters. “Por que você permitiria que eles estivessem no controle? (…) Você precisa de pelo menos uma estrutura rudimentar de algum tipo de aparato regulatório” para regular a IA, acrescentou.
No campo democrata, o senador Ron Wyden, do Oregon, fez uma avaliação semelhante sobre a condução do governo.
“Trump sumiu porque acha que os bilionários donos de empresas de IA estão do lado dele. Em vez de tentar resolver esses problemas, Trump e seus aliados estão focados em bloquear as leis estaduais sobre IA e derrubar as proteções básicas que empresas como a Anthropic impuseram sobre o uso de seus modelos”, afirmou.
As críticas ocorrem em meio a uma relação conturbada entre o governo federal e a Anthropic. Neste ano, a empresa rompeu relações com as autoridades americanas depois de rejeitar o uso de seus modelos pelas Forças Armadas em projetos voltados à vigilância doméstica em massa e ao desenvolvimento de sistemas de armas totalmente autônomos. Procuradas pela Reuters, a Casa Branca e a OpenAI não responderam aos pedidos de comentário, enquanto um porta-voz da Anthropic optou por não comentar o assunto.
Embora representem correntes políticas distintas, Bannon e Wyden convergem ao defender que os laços entre Trump e grandes empresas de tecnologia podem reduzir a disposição da administração para endurecer a regulamentação da inteligência artificial. A aproximação é reforçada por contribuições financeiras expressivas ao presidente e pela presença de profissionais do setor em cargos estratégicos do governo.
Segundo registros da Comissão Federal de Eleições (FEC), empresas e executivos da área de tecnologia contribuíram com mais de US$ 300 milhões para apoiar a campanha de reeleição de Trump em 2024 e a MAGA Inc., comitê de ação política alinhado ao presidente. Em 2025, os principais doadores individuais ligados ao setor de IA também continuaram financiando o grupo.
O presidente da OpenAI, Greg Brockman, e sua esposa, Anna Brockman, destinaram juntos US$ 25 milhões ao comitê. Já a empresa de investimentos Andreessen Horowitz, juntamente com seus cofundadores Ben Horowitz e Marc Andreessen, contribuiu com US$ 12 milhões desde a segunda posse de Trump. Nenhum deles respondeu aos questionamentos feitos pela Reuters.
Também aparecem entre os doadores a investidora do Google Asha Jadeja, o CEO da SpaceX, Elon Musk, e o CEO da Blackstone, Stephen Schwarzman, que, conforme os registros da FEC, doaram pelo menos US$ 5 milhões cada ao comitê em 2025. A Blackstone possui investimentos em infraestrutura de inteligência artificial, incluindo um projeto de computação em nuvem voltado para IA em parceria com o Google. Jadeja, Musk, Schwarzman e a Blackstone também não responderam aos pedidos de comentário.
Amy Kremer, ativista conservadora que apoiou Trump e participou da organização do comício realizado em 6 de janeiro antes da invasão ao Capitólio, afirmou que a indústria de tecnologia construiu “um fosso ao redor da Casa Branca”.
A influência do setor também se reflete na composição do governo. Trump levou para sua administração nomes ligados à tecnologia, como Elon Musk, responsável por supervisionar cortes na força de trabalho federal durante os primeiros meses do segundo mandato; David Sacks, escolhido como czar da IA da Casa Branca; Sriram Krishnan, da Andreessen Horowitz; e Michael Kratsios, da Scale AI. Sacks e Krishnan deixaram posteriormente seus cargos, embora Sacks permaneça como assessor externo para assuntos de tecnologia.
Em junho, a administração anunciou que pretendia solicitar a empresas como OpenAI e Anthropic que submetessem, de forma voluntária, modelos de IA com capacidade avançada de invasão de sistemas a avaliações de cibersegurança antes de sua liberação ao público. Até agora, entretanto, o governo não explicou como esse processo funcionará, e a Reuters informou que apenas parte dos modelos deverá participar da iniciativa.
O deputado democrata Gregorio Casar, do Texas, também criticou a estratégia adotada pela Casa Branca.
“Ele recebeu milhões dos bilionários da IA. Agora, diante de problemas extremamente perigosos de cibersegurança envolvendo IA, diz que implementou uma revisão ‘voluntária’ que ninguém viu. Está dormindo ao volante. Está ocupado demais lucrando para proteger nossos empregos ou a segurança nacional”, escreveu na rede social X.
David Sacks tem defendido uma política de menor intervenção estatal sobre a inteligência artificial, argumentando que regras mais rígidas podem prejudicar a competitividade das empresas americanas frente às concorrentes chinesas. Em linha com essa posição, o governo Trump também buscou convencer o Congresso a aprovar uma proposta que restringia regulamentações estaduais sobre IA, mas a medida acabou rejeitada pelo Senado dos Estados Unidos.
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