Ícone do Widget

Relacionado

×

Brasil registra recorde na apreensão de emagrecedores na fronteira com o Paraguai

Apreensões de canetas e ampolas com semaglutida e tirzepatida superam 76 mil unidades no primeiro semestre de 2026

Tempo de leitura: ...

A fiscalização na fronteira entre Brasil e Paraguai registrou uma mudança expressiva no perfil das mercadorias apreendidas em 2026. Medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida passaram a ocupar espaço relevante entre os produtos interceptados, impulsionados pela forte procura brasileira por tratamentos associados à perda de peso.

Somente nos seis primeiros meses deste ano, 76.112 canetas e ampolas foram retidas pela Receita Federal na região de Foz do Iguaçu, no Paraná. O valor estimado das mercadorias chegou a R$ 19,53 milhões. O resultado representa mais de três vezes o volume contabilizado durante todo o ano de 2025, quando 24.994 unidades foram apreendidas.

Junho concentrou o maior número de ocorrências de 2026. Naquele mês, foram interceptadas 25.828 unidades, avaliadas em aproximadamente R$ 4,3 milhões.

O avanço desse tipo de contrabando acompanha a disparidade de preços entre os dois países. Segundo dados da Receita Federal, uma ampola de tirzepatida pode custar cerca de R$ 340 no Paraguai. No mercado brasileiro, o Mounjaro, medicamento que contém a mesma substância e possui comercialização regularizada no país, é encontrado por valores a partir de R$ 1.400.

A diferença econômica ajuda a explicar a expansão do comércio irregular, especialmente na região da Ponte da Amizade, ligação entre Foz do Iguaçu e Cidade do Leste. O local movimenta diariamente uma quantidade elevada de pessoas e veículos e já é conhecido pela atuação de grupos envolvidos em diferentes modalidades de contrabando.

O crescimento das apreensões começou a ganhar força em 2025. Nos dois primeiros meses daquele ano, a quantidade de ocorrências ainda era pequena. A primeira grande retenção ocorreu em março, envolvendo mercadorias avaliadas em R$ 2.262,45. Em dezembro, o valor das apreensões havia aumentado 1.136% em relação a março, chegando a R$ 2.796.198,34 em uma das maiores ações daquele período.

Para Flávio Bernardino de Carvalho, auditor fiscal da Receita Federal, a variedade de meios utilizados para transportar os medicamentos dificulta o combate ao comércio clandestino.

“Vem ônibus de linha, carros, caminhão de empresas de market place, vem turistas. Tudo quanto é forma. Tem o crime organizado e pessoas avulsas. É muito pulverizado”, diz o auditor. “Os emagrecedores peptídicos, pelo menos aqui na Receita Federal da 9º regional do Paraná e Santa Catarina, é o segundo no valor de apreensões. Só estão atrás dos celulares”, completa.

A fiscalização também encontrou diferentes estratégias para esconder os produtos. As canetas e ampolas já foram localizadas dentro de embalagens de shampoo, recipientes de gel de massagem, solados de calçados e compartimentos ocultos em veículos. Outra preocupação das autoridades é que os medicamentos podem perder suas características quando transportados sem as condições adequadas de conservação.

Embora existam caminhos clandestinos pelo Rio Paraná, inclusive com embarcações, a Ponte da Amizade permanece como um dos principais pontos de atuação da Receita Federal. Em períodos de maior movimento, a estimativa é de que mais de 100 mil pessoas e aproximadamente 45 mil veículos atravessem diariamente a ligação entre os dois países.

A expansão do mercado ilegal ocorre paralelamente ao crescimento da procura por medicamentos relacionados ao GLP-1 no Brasil. Dados da Serasa Experian indicam que as solicitações online desses produtos aumentaram 149,3% no primeiro semestre de 2026. O número passou de 547.249 no semestre anterior para 1.364.354 pedidos entre janeiro e junho, com valores que, somados, ultrapassaram R$ 2,3 bilhões.

Pesquisadores também identificaram maior interesse por produtos que não possuem registro sanitário no Brasil. Um estudo publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva pelo Núcleo de Estudos em Comunicação, História e Saúde da Fundação Oswaldo Cruz apontou crescimento de 6,29% nas buscas realizadas no Google por esses produtos entre maio de 2025 e maio de 2026. Entre os nomes citados estão TG, Tirzec, Lipoless, Lipoland e Retatrutida.

No Paraguai, a venda de semaglutida e tirzepatida não exige receita médica, segundo as informações apresentadas no levantamento. A publicidade dos produtos também está disseminada em estabelecimentos comerciais de Cidade do Leste, favorecendo a expansão da oferta direcionada a consumidores brasileiros.

As autoridades avaliam ainda que uma eventual mudança no cenário de patentes pode alterar a dinâmica desse comércio. Carvalho cita o que ocorreu com a semaglutida após a quebra de patente em 2025 e considera possível efeito semelhante sobre a tirzepatida.

“Quando houve a quebra da patente dos estimulantes sexuais, as vendas no Paraguai caíram muito e hoje quase não se vende o produto por lá. Vale mais a pena comprar de uma fonte confiável no Brasil. O mesmo pode acontecer com a tirzepatida”, afirma.

Os produtos fabricados no Paraguai mencionados no levantamento não possuem autorização para comercialização no Brasil. A entrada clandestina de medicamentos sem autorização sanitária é enquadrada como crime contra a saúde pública. Conforme o artigo 273 do Código Penal, a conduta pode resultar em pena de reclusão de 10 a 15 anos, além de multa.

Comentários