8/01/2026 11:52:00 AM
Tempo de leitura: ...

Uma mudança na política migratória dos Estados Unidos durante o segundo mandato do presidente Donald Trump ampliou o compartilhamento de informações entre órgãos do governo e resultou na detenção de milhares de migrantes que buscavam reunir suas famílias. Dados internos do governo obtidos pela Reuters apontam que mais de 12 mil pessoas foram presas pelo Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) após o Escritório de Reassentamento de Refugiados (ORR) fornecer informações relacionadas a crianças migrantes desacompanhadas, seus responsáveis e integrantes de seus domicílios.
Criado em 1980 para reassentar refugiados, o ORR passou, no início dos anos 2000, a administrar o acolhimento de menores desacompanhados que cruzavam a fronteira entre os Estados Unidos e o México. Até então, a política adotada buscava separar o cuidado dessas crianças das ações de fiscalização migratória. Uma legislação aprovada em 2008 determinava que elas fossem encaminhadas ao ambiente menos restritivo possível e liberadas assim que houvesse segurança para isso, independentemente da situação migratória dos responsáveis.
Segundo os dados analisados pela Reuters, desde janeiro de 2025 o ORR compartilhou mais de 460 mil registros com o ICE envolvendo menores desacompanhados, patrocinadores — normalmente pais ou parentes — e outras pessoas residentes nas mesmas casas. A agência de notícias informa que esta é a primeira vez que a dimensão desse intercâmbio de dados voltado à fiscalização migratória é revelada.
Em nota, o ORR afirmou que “não desempenha nenhum papel na detenção de crianças” e direcionou os questionamentos sobre fiscalização migratória ao Departamento de Segurança Interna (DHS), responsável pelo ICE. O DHS declarou que, durante o atual mandato de Trump, o ORR forneceu à divisão de Investigações de Segurança Interna do ICE possíveis pistas para investigações, como parte de uma iniciativa para localizar crianças desacompanhadas entregues a “responsáveis não verificados”, incluindo alguns com antecedentes criminais.
Para Jen Smyers, que ocupou o cargo de vice-diretora do ORR durante o governo Biden, a política representa uma ruptura com o modelo anterior. “Eles estão transformando um programa de bem-estar infantil em uma ferramenta para promover mais deportações”, disse ela.
Uma das pessoas afetadas é Aurora, de 24 anos, que entrou ilegalmente nos Estados Unidos há dois anos em busca de emprego e melhores condições de vida. Ela deixou a filha no México por considerar a travessia da fronteira perigosa para uma criança tão pequena. Meses depois, um familiar levou a menina até a fronteira para que ela se apresentasse às autoridades americanas, prática utilizada por algumas famílias que tentam promover a reunificação.
A criança permaneceu por mais de seis meses em um abrigo administrado pelo ORR enquanto Aurora reunia a documentação exigida para obter sua liberação, incluindo um teste de DNA. Durante a administração Trump, o processo de verificação passou a exigir novas etapas, entre elas a coleta de impressões digitais de todos os moradores da residência do responsável.
Dados do ORR mostram que o tempo médio de permanência de crianças desacompanhadas sob custódia aumentou de 30 dias no ano fiscal de 2024 para 194 dias em junho de 2026. O órgão afirmou que o endurecimento das verificações tem como objetivo ampliar a proteção dos menores.
Após finalmente reencontrar a filha no fim de março, Aurora relatou que ambas foram detidas poucos dias depois durante um comparecimento ao escritório do ICE. Antes da prisão, agentes haviam ido até sua residência para perguntar sobre a menina e determinar que ela se apresentasse às autoridades.
Durante o atendimento, Aurora afirmou ter sido questionada sobre possíveis problemas com a Justiça nos Estados Unidos. “Não, porque não fiz nada de errado. Tudo o que faço é trabalhar”, respondeu ela.
Mãe e filha foram encaminhadas para um centro de detenção familiar em Dilley, no Texas, onde permaneceram por cerca de três semanas. Após a liberação, Aurora recebeu uma tornozeleira eletrônica e passou a cumprir apresentações periódicas enquanto aguarda a decisão de seu processo migratório. O DHS confirmou a detenção e informou que ela havia admitido ter sido “introduzida ilegalmente no país através da fronteira”.
Enquanto esteve presa, Aurora perdeu o imóvel onde morava no Mississippi. Segundo seu relato, o proprietário descartou seus pertences após o despejo. Sem ter para onde ir, ela e a filha seguiram para a Califórnia, onde passaram a viver na casa de uma amiga.
Mesmo fora da detenção, as consequências permanecem. Aurora afirma viver com o receio de ser deportada e conta que a filha ainda sofre os efeitos da experiência. Segundo ela, a menina “levanta e chora, achando que ainda está detida”.
Outra família citada na reportagem vive situação semelhante. Marleny deixou a Guatemala em 2023 com o filho mais novo para fugir da violência e passou a trabalhar na limpeza de canteiros de obras no Texas. Seu filho mais velho, Victor, permaneceu inicialmente no país de origem, mas decidiu seguir para os Estados Unidos após o assassinato de um tio.
Victor passou quatro meses sob custódia do ORR e foi liberado pouco antes de completar 18 anos. Para conseguir sua liberação, Marleny entregou extensa documentação às autoridades, incluindo registros fiscais e impressões digitais dela e do companheiro.
“Eu estava tão feliz”, disse Marleny. “Eu não sabia, na época, o que Deus reservava para mim.”
Ela também ressaltou que não havia antecedentes criminais. Segundo suas palavras, estavam com a ficha “limpa, limpa, limpa”, disse ela.
Dois meses após a reunião da família, agentes do ICE prenderam Marleny e seu companheiro quando eles saíam para trabalhar. Ela relatou que ambos foram abordados sob a mira de armas.
O DHS informou que a operação cumpria um mandado de busca criminal contra o “colega de quarto” de Marleny, em referência ao companheiro dela, mas não forneceu detalhes sobre a investigação nem explicou como chegou ao local.
“Ver as armas foi traumático”, disse Marleny, lembrando-a da violência que deixara para trás na Guatemala.
Ao presenciar a prisão, um vizinho avisou Victor, que estava em casa com o irmão de 6 anos. Em desespero, ele entrou em contato com um assistente jurídico do Projeto de Representação do Imigrante Galveston-Houston (GHIRP).
“Vimos tantos patrocinadores serem presos, e outras pessoas sendo detidas junto com eles”, disse Alexa Sendukas, advogada supervisora do GHIRP.
Desde então, Victor passou a cuidar sozinho do irmão mais novo. Em meio à situação, ele deixou de comparecer a uma audiência judicial relacionada ao próprio processo migratório, recebeu uma ordem de deportação e agora tenta encontrar assistência jurídica para solicitar a reabertura do caso.
“Preciso seguir em frente”, disse ele.
Comentários
Postar um comentário